Loading
Provas de Doutoramento

Provas de doutoramento: Ana Leitão

Data
18 Nov, 2026
2:00
Local
Sala de reuniões dos Orgãos de Gestão da Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa
Grupos de Investigação

No dia 18 de Novembro de 2026 (quarta-feira), pelas 14h00, na Sala de Reuniões dos Órgãos de Gestão da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, Ana Maria de Sousa Leitão prestará provas públicas de doutoramento, defendendo a tese intitulada: Dança Generativa como Sistema Dinâmico Auto-Organizado: Um Estudo sobre a Emergência Coreográfica e o Fenómeno do Estar-Juntos

O júri, presidido pela Professora Celeste Simões, Professora Associada e Vice-Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, tem a seguinte composição:

  • Professora Susan Sgorbati – Professora Catedrática, Bennington College, Vermont, EUA;
  • Professora Dolors Cañabate Ortiz – Professora Associada, Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade de Girona;
  • Professora Carla Montez Fernandes – Investigadora Principal, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa;
  • Professor Daniel Filipe de Jesus Carrilho – Professor Auxiliar Convidado, Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa;
  • Professor Ângelo Miguel Cid Neto – Professor Auxiliar Convidado, Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa;
  • Professora Maria João Fernandes do Nascimento Alves – Professora Auxiliar, Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa

Dança Generativa como Sistema Dinâmico Auto-Organizado: Um Estudo sobre a Emergência Coreográfica e o Fenómeno do Estar-Juntos

Esta tese investiga de que forma a dança pode ser concebida como um sistema dinâmico auto-organizado, capaz de gerar estruturas coreográficas emergentes a partir de regras relacionais simples, inspiradas em modelos baseados em agentes, e de que modo esta abordagem influencia a experiência vivida pelos bailarinos na co-criação em tempo real e no fenómeno do estar-juntos (togetherness).
A tese é apresentada na modalidade de compilação de artigos científicos, integrando cinco artigos sujeitos a revisão por pares, organizados em quatro capítulos temáticos que abordam as dimensões conceptual, formal, metodológica e empírica da investigação.
Do ponto de vista conceptual, a tese enquadra a dança generativa como uma prática simultaneamente relacional, dinâmica e experiencial, na qual a coerência global emerge da interacção local e da co-regulação, em vez de resultar de um controlo externo.
Uma arquitectura conceptual e epistemológica integrada articula a modelação computacional, enquanto instrumento heurístico que permite tornar visíveis os princípios organizadores; a tradução das dinâmicas modeladas em Objectos Coreográficos Matemáticos (Mathematical Choreographic Objects – MCO), enquanto partituras relacionais; a sua activação através do programa Dança Generativa com Modelos Baseados em Agentes (Generative Dance with Agent-Based Models – GDAM); e o estudo qualitativo do estar-juntos enquanto fenómeno emergente e situado.
Do ponto de vista metodológico, a investigação adopta um desenho transformativo de métodos mistos (Creswell, 2014), combinando uma componente quantitativa implícita (modelação computacional) com uma abordagem qualitativa explícita (experiência e interpretação), interligadas através de uma lógica iterativa de investigação orientada pela prática e de prática orientada pela investigação (Practice-led Research e Research-led Practice) (Smith & Dean, 2009).
O estudo desenvolve-se em três fases interdependentes:
1. A formalização e análise sistemática de modelos teóricos baseados em agentes;
2. A prática artística enquanto investigação, através do desenvolvimento e implementação de Objectos Coreográficos Matemáticos (MCO) e do programa GDAM;
3. A investigação qualitativa, baseada em entrevistas aprofundadas centradas na experiência vivida pelos bailarinos ao dançarem em conjunto e no fenómeno do estar-juntos.
Ao longo da tese, as regras relacionais simples — operacionalizadas através dos MCO — revelam-se capazes de sustentar a auto-organização colectiva e de gerar configurações coreográficas distintas, apoiando formas distribuídas de autoria e deslocando o papel da coreografia da direcção de resultados para a criação de condições que catalisam correlações entre os intérpretes.
Simultaneamente, a articulação entre modelação e prática revela-se fértil, embora inevitavelmente parcial: a prática incorporada introduz no sistema dimensões de atenção, afecto e intencionalidade, posicionando a modelação como uma linguagem heurística, e não como uma redução da dança a modelos formais.
Através da prática GDAM, a emergência é abordada como uma experiência incorporada, frequentemente descrita como a formação de padrões que parecem «surgir por si próprios», na qual o trabalho coreográfico se desenvolve como um campo de possibilidades em tempo real, organizado em torno de tendências semelhantes às de atractores.
Os MCO, enquanto regras relacionais, funcionam como condicionantes que possibilitam a acção, redistribuindo a agência composicional e mantendo, simultaneamente, o sistema aberto à imprevisibilidade.
Os testemunhos qualitativos sugerem que a prática GDAM pode favorecer experiências situadas de estar-juntos, através da co-regulação intercorporal e de formas de agência do «nós» (WE-agency), manifestadas na abertura a conteúdos intencionais partilhados, na consciência mútua, na influência recíproca e num sentimento vivido de unidade e pertença.
Estas experiências são, contudo, sempre dependentes do contexto e continuamente negociadas através da escuta mútua, de rupturas e de processos de reparação.
Em termos globais, esta tese pode ser entendida como um contributo, nas dimensões teórica, metodológica, artística e pedagógica, para as Ciências da Motricidade Humana e para as concepções contemporâneas da coreografia enquanto processo relacional emergente.