SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTUDOS HISTÓRICOS E CULTURAIS EM MÚSICA
O Seminário Permanente do grupo de investigação Estudos Históricos e Culturais em Música do INET-md pretende ser um fórum onde todos os seus membros (integrados e colaboradores), bem como outros investigadores e investigadoras do meio académico, cultural e artístico, possam apresentar o seu trabalho e discutir projectos e investigações em curso.
16-06-2026 | 15h00 | NOVA FCSH, Av. de Berna, Lisboa | Torre B – Sala B201 & Online
Acesso livre, presencial e online.
ID da Reunião: 353 035 047 095 512
Código de acesso: Lu7d4Ra3
Entre a sociabilidade mundana e a divulgação da “divina Arte Musical”: os salões musicais na Lisboa de fin-de-siècle (1881–1928)
Alejandro Reyes-Lucero | INET-md/NOVA FCSH
A música desempenhou diversos papéis na dinamização das sociabilidades de salão da aristocracia e da burguesia da Lisboa de finais do séc. XIX e dos inícios do séc. XX. Os salões dos duques de Palmela e dos condes de Valbom, Ficalho, Magalhães, Daupias e Burnay destacam-se entre os numerosos exemplos de casas da aristocracia de linhagem e de recente nobilitação que organizavam grandes receções no último quartel do séc. XIX. As soirées mundanas incluíam a realização de momentos musicais e extensos divertimentos dançantes. Os repertórios preferidos pelos frequentadores das salas elegantes alternavam entre trechos de óperas em voga, pot-pourris instrumentais nelas inspirados e coleções de danças de salão — valsas, polkas, mazurkas, etc. Nestes salões, a música era um dos muitos elementos que faziam parte de um complexo aparato mundano.
Com as audições que começaram a realizar-se no salão do pianista e professor Alexandre Rey Colaço e na residência da Condessa de Proença-a-Velha em finais da década de 1890, surgiram novos salões nos quais se procurava substituir as diversões mundanas por uma apreciação ativa da música. Foram sobretudo mulheres amadoras as que alcançaram um maior protagonismo nesta transformação, encontrando nos salões musicais um espaço de intervenção e influência no meio artístico-intelectual de elite como contraponto ao rígido contexto de hierarquias sociais que as limitavam no espaço público. O variado leque de atividades que caracterizava os encontros mundanos, nos quais a música tinha um papel secundário, como pano de fundo, dava lugar a programas centrados na divulgação de obras de compositores “clássicos”, “românticos” e “modernos” — a “divina Arte Musical” — que exigiam uma escuta atenta e informada. Esta nova cultura de escuta ficou cristalizada na organização de recitais-conferência e de concertos concebidos em ciclos históricos ou séries temáticas, complementados pela presença de artistas de renome.
Para este seminário, proponho questionar o modo como a prática de salão se caracterizou em Lisboa neste período, indagar as motivações que levaram determinados agentes a sentir a necessidade de divulgar a “divina Arte Musical” e averiguar o papel que as mulheres desempenharam nesse processo. Os casos selecionados serão organizados em três tipologias: os salões “mundano-musicais” — Sara Mota Marques e Elisa Baptista Sousa Pedroso —, os “salões-atelier”, onde a música se articulava com a pintura e com o teatro — Adelaide Lima Cruz e Maria Emília Macieira Lino —, e os “salões-pedagógicos”, onde o cultivo da música se reforçava através de dispositivos extramusicais que visavam elevar o grau de conhecimento dos frequentadores — a Condessa de Proença-a-Velha, Alexandre Rey Colaço e Ema Santos Fonseca. Acredito que esta tipologia permite revelar não apenas a diversidade das práticas musicais de salão em Lisboa, mas também o modo como a música funcionou como veículo de distinção cultural e de afirmação de uma tentativa de projeto estético e social propositado, no qual as mulheres desempenharam um papel central.
Alejandro Reyes-Lucero | Natural da Venezuela (n. 1995), começou os seus estudos musicológicos na Universidad Central de Venezuela (UCV). É licenciado em Ciências Musicais (2019) e mestre em Musicologia Histórica (2021) pela NOVA FCSH. Atualmente, é doutorando em Ciências Musicais – Musicologia Histórica na NOVA FCSH, beneficiando de uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e desenvolvendo o seu trabalho de pesquisa como membro do INET-md. A sua investigação debruça-se sobre a atividade musical privada e doméstica no contexto da cidade de Lisboa entre finais do século XIX e inícios do século XX, com particular incidência no caso do salão musical do pianista e professor Alexandre Rey Colaço (1854-1928). Entre 2021 e 2022, participou como bolseiro de investigação no projeto PROFMUS: ser músico em Portugal – a condição socioprofissional dos músicos em Lisboa (1750-1985), sediado no INET-md e financiado pela FCT. Tem o oitavo grau de piano e realizou um diplomado de um ano em Direção Orquestral na UCV.