SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTUDOS HISTÓRICOS E CULTURAIS EM MÚSICA
O Seminário Permanente do grupo de investigação Estudos Históricos e Culturais em Música do INET-md pretende ser um fórum onde todos os seus membros (integrados e colaboradores), bem como outros investigadores e investigadoras do meio académico, cultural e artístico, possam apresentar o seu trabalho e discutir projectos e investigações em curso.
28-05-2026 | 15h00 | NOVA FCSH, Av. de Berna, Lisboa | Torre B – Sala B307 & Online
Acesso livre, presencial e online.
ID da Reunião: 338 096 939 096 545
Código de acesso: 8jg9La7H
A MÚSICA NOS TRATADOS TEÓRICOS DOS SÉCULO XVII E XVIII: CIÊNCIAS, ARTES E HISTORIOGRAFIA
Da «Musurgia Rhetorica» à «Arca Musarithmica»: Introdução à Musurgia Universalis (Roma, 1650) de Athanasius Kircher (1601/2-1680)
Fernando Miguel Jalôto (INET-md, NOVA FCSH)
O padre jesuíta Athanasius Kircher, famoso polímata do século XVII, professor no Colégio Germânico em Roma, e especialista nos mais variados campos — «o último homem do Renascimento» (Schmidt) e «um dos últimos pensadores que podiam legitimamente reivindicar todo o conhecimento como seu domínio» (Cutler) — publicou em 1650, em Roma, Musurgia Universalis, um vastíssimo manual do pensamento antigo e contemporâneo sobre a música, a sua produção e os seus efeitos. Nela explora, para além de todas as possíveis questões de história, teoria e notação, a relação entre as propriedades matemáticas da música, a sua conexão com a medicina, a retórica, mas também a física: a emissão e recepção do som; fenómenos acústicos, instrumentos, mecanismos vários, etc. Como bem sintetizou Bullow, é «um compêndio de factos e especulações musicais que permanece essencial para a compreensão da música e da teoria musical seiscentistas […] no qual se basearam quase todos os teóricos musicais alemães posteriores, até bem entrado o século XVIII» ou, de uma forma mais simplista, a primeira «enciclopédia musical» da História. Nesta comunicação passeamo-nos pelas mais de mil e cem páginas dos dois volumes da obra para, de uma forma necessariamente sintética, ficarmos a conhecer algumas das suas maiores contribuições para o conhecimento musical em geral, e sobretudo o seu papel ainda hoje muito relevante para a compreensão da música dos séculos XVI a XVIII e a sua interpretação.
Fernando Miguel Jalôto | Doutorado em Musicologia Histórica pela NOVA FCSH com uma tese sobre o compositor, poeta e cantor napolitano Antonio Tedeschi (1702-1770). Os seus interesses de investigação são no campo da História da Música e da Cultura Portuguesas nos séculos XVII e XVIII, e das Práticas Históricas de Interpretação. É Master of Music em Cravo pelo Departamento de Música Antiga e Práticas Históricas de Interpretação do Conservatório Real da Haia (Países Baixos) e Mestre em Música pela Universidade de Aveiro, com uma dissertação sobre Música de Câmara em Portugal no século XVIII. Estudou com Jacques Ogg, Gustav Leonhardt, Olivier Baumont e Ilton Wjuniski. Toca cravo, órgão barroco, fortepiano e clavicórdio. É director artístico do Ludovice Ensemble, e colabora com vários grupos e orquestras nacionais e internacionais, como músico free-lancer e maestro al cembalo.
Entre a Monarquia Lusitana e a historiografia das Luzes: as resenhas históricas inseridas em tratados de música do século XVIII e a emergência de fragmentos de história da música
Mariana Portas de Freitas (INET-md, NOVA FCSH)
A partir da primeira metade do século XVIII acentua-se, em alguns tratados de teoria musical ibéricos, uma dimensão historiográfica que não se observava em obras análogas dos séculos anteriores. A narrativa histórica e a ideia de «progresso» da humanidade, incluindo o progresso das artes e da música, vai aflorando de forma parcelar e descontínua. A introdução de resenhas históricas mais ou menos desenvolvidas traduz a emergência gradual da História como ciência propedêutica das outras ciências ou artes, um procedimento característico da mentalidade das Luzes. Essa vertente historiográfica convive, lado a lado, com a vertente teológica e cosmogónica que continua a ser reproduzida, relatando as origens remotas da música nos confins dos tempos, com base na autoridade do Antigo Testamento.
Alguns tratados de música do Antigo Regime, produzidos na esfera eclesiástica dos grandes mosteiros e catedrais, como a Escuela Musica segun la Practica Moderna (1724), de Pablo Nassarre, ou a Escola de Canto de Órgão (1759), de Caetano de Melo de Jesus, continuaram a reproduzir as narrativas das origens bíblicas e intemporais da música como parte de uma cosmogonia ou mundivisão teológica. A par disso vão surgindo, no início de capítulos ou matérias teóricas, as resenhas históricas sobre a formação das estruturas musicais ao longo do tempo, como a «invenção dos signos» e das sílabas de solmização de Guido d’Arezzo ou a evolução das figuras do sistema mensural desde a sua teorização por Jean de Murs (século XIV), Johannes Tinctoris e Franchino Gaffurio (século XV). Vão sendo assim introduzidas notícias históricas parcelares, que antecedem o surgimento das «histórias da música» gerais, já em plena época das Luzes europeias, como a Storia della musica (1757-81) de Giovanni Battista Martini.
Se na abordagem historiográfica geral o modelo que prevalece nos tratados de música analisados é o da narrativa hagiográfica dos cronistas, permeada de providencialismo religioso, como sucede na Monarquia Lusitana, dos monges de Alcobaça, referida na Escola de Canto de Órgão da Bahia, por outro lado, a preocupação de inserir notícias históricas prenuncia um método mais rigoroso, não muito distante do pensamento das Luzes. Esse contribuiria para a formação de uma visão eclética, isto é, a noção de que a verdade não é intemporal e foi sendo construída ao longo do tempo.
Mariana Portas de Freitas | É doutorada em Ciências Musicais Históricas pela NOVA FCSH, com a tese Modelos e singularidades na teoria musical luso-brasileira do Antigo Regime. A Escola de Canto de Orgão de Caetano de Melo de Jesus (Salvador da Bahia, 1759-60). É Investigadora Integrada do INET-md, NOVA FCSH, e colaboradora do Caravelas — Núcleo de Estudos da História da Música Luso-Brasileira do CESEM (Centro de Estudos em Música). Concluiu em 2003 o Mestrado em Musicologia Histórica na mesma faculdade (NOVA FCSH), com a dissertação Diogo Dias Melgás (1638-1700). Da tradição polifónica à inovação barroca. Desde 1992 é licenciada em Direito pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa).