
Andrew Snyder, investigador integrado do INET-md, assina o artigo “The Struggle for Lisbon’s Brazilian Carnival Against Structural Xenophobia“, publicado em acesso aberto na revista Music and Minorities.
Resumo:
Desde meados da década de 2010 que os imigrantes brasileiros celebram o Carnaval nas ruas de Lisboa, Portugal, a cidade que já foi a metrópole do Brasil. Uma vez que os eventos dos blocos (conjuntos carnavalescos) começaram relativamente pequenos, inicialmente aproveitaram o estatuto legal de desfilar enquanto “manifestações,” beneficiando de taxas mínimas. Em 2020, registando um significativo crescimento e atraindo multidões de milhares de pessoas, a polícia começou a categorizá-los como “eventos comerciais.” Este novo estatuto exigiu que os blocos passassem a pagar taxas exorbitantes, apesar das suas celebrações em espaços públicos não terem fins lucrativos, o que criou inúmeros obstáculos à realização dos eventos. Os imigrantes brasileiros interpretam muitas vezes o tratamento dado ao Carnaval como uma expressão da xenofobia prejudicial que frequentemente vivenciam em Portugal. No entanto, a cidade teve o cuidado de não estigmatizar as práticas culturais brasileiras, alegando que os brasileiros não são tratados de forma diferente dos restantes. Defendo que os imigrantes brasileiros em Portugal têm enfrentado uma xenofobia estrutural, uma forma sistémica de exclusão contra comunidades imigrantes manifestada através de obstáculos burocráticos que podem ou não acompanhar a xenofobia prejudicial. Quando os sistemas de gestão de eventos não se adaptam estruturalmente aos objetivos de equidade e inclusão, podem acabar por excluir as festividades destas comunidades que não conseguem tão facilmente beneficiar destes sistemas quanto os atores da sociedade de acolhimento. Em 2023, os blocos lançaram uma campanha para viabilizar o Carnaval através de protestos e negociações com a cidade. Este artigo examina a forma como a comunidade carnavalesca se transformou num movimento social contra a xenofobia estrutural. Num desenvolvimento promissor, Lisboa assinou um acordo em 2025 que oficializou o Carnaval e que fornece uma base sólida à festividade, o que representou uma vitória após anos de campanha e negociação. O artigo analisa as estratégias que os blocos usaram para, finalmente, alcançarem este estatuto após anos de combate à xenofobia estrutural que os tinha deixado continuadamente numa posição precária.