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Conferência

 

Práticas performativas em torno d'O Animal

 

30 de Junho de 2018 | 9:30-18:00 | Faculdade de Motricidade Humana

 

Resumo

A performatividade em torno da animalidade oscila sempre entre a separação e a indistinção do homem relativamente ao animal. Definido por oposição a este, o humano diferenciou-se pelos atributos da razão e da linguagem. Mesmo o darwinismo que tanto contribuiu para situar o homem na cadeia da evolução animal considera-o como a sua última etapa, insisBndo na ideia de um ser apenas superável por si mesmo. O século XXI tem vindo, no entanto, a consolidar a emergência de uma nova condição. Fruto dos resultados de múltiplas disciplinas que investigam a inteligência, a linguagem e os comportamentos animais e reforçando a crise do humanismo cada vez mais posto em causa pela destruição galopante da sua relação com a natureza, o homem não pode mais ser encarado como o centro de uma suposta ética universal. Não será mais do que um entre outros seres singulares, de valor intrínseco. Trata- se então de abrir o pensamento da  relação homem/mundo à vida natural da Terra, com todas as implicações que isso acarreta do ponto de vista filosófico, epistemológico e cultural - especialmente no que toca às políticas de convivência com o não- humano. Uma tal transformação crítica atinge desde logo o animal em relação ao qual o homem terá inevitavelmente de se definir. Vários têm sido os autores a discorrer sobre esta necessidade de revisão: Derrida contestou a oposição binária humano-animal baseada exclusivamente na (privação de) linguagem; Haraway defendeu a ideia de não-humanismo, considerando a inclusão de todas as espécies num contínuo transversal de co-evolução; Deleuze e Guattari partiram do conceito de devir-animal como forma de desterritorialização do humano, propondo o seu espraiamento por novas zonas de intensidade afectiva; entre outros que têm contribuído para alimentar aquilo a que já se chamou Animal turn. Como questiona Agamben, talvez a procura pela identidade animal se apresente como a “última tarefa histórica da humanidade”. Deslocada de si mesma, a noção de “humanidade” daria lugar a uma outra ideia do homem, do animal e do laço que os une e separa. Este movimento crítico coloca várias questões e desafios às artes performativas, especialmente no que diz respeito às práticas de alteridade corporal do performer. Ao procurar agenciar qualidades que são próximas, já não do homem no senBdo tradicional mas da sua (nova) natureza a explorar, levanta-se um novo campo de possibilidades criativas e de reflexão estética relacionadas com o corpo: enquanto ambiente de encontro e contacto animal, matéria de transfiguração e transmutação, fonte e prática de conhecimento afectivo, espaço de perscrutação intuitiva e vital. Mas que corpo-animal é este, afinal, e como se (re)constrói?

 

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